Margarita Simonyan é um dos principais rostos da propaganda e da desinformação disseminadas pelo presidente russo, Vladimir Putin, tanto internacionalmente quanto dentro da Rússia. Ela é hábil em espalhar mentiras como se fossem verdades — e com um sorriso. Margarita Simonyan começou sua carreira  como jornalista em 2001 na mídia financiada e controlada pelo Kremlin da Companhia de Radiodifusão e Televisão Estatal de Toda a Rússia (VGTRK). Em 2005, ela se tornou editora-chefe da RT, primeiro meio de comunicação em inglês da Rússia financiado pelo Estado, anteriormente conhecido como Russia Today. Ela mantém seu cargo na RT  ao mesmo tempo em que atua como editora-chefe da Rossiya Segodnya, editora-chefe da TV-Novosti e cofundadora da Associação para o Desenvolvimento do Jornalismo Internacional. Apesar das muitas funções que desempenha, sua principal função é ser leal propagandista de Vladimir Putin.

Uma vida de mentiras

Ao longo de sua carreira, Margarita Simonyan tem apoiado a agenda do Kremlin disseminando desinformação e propaganda. Antes de se tornar editora-chefe da RT, Margarita trabalhou na equipe de jornalistas do Kremlin fazendo coberturas sobre o presidente Putin. Ela ficou famosa depois de fazer uma reportagem sobre o ataque terrorista a uma escola de Beslan em 2004 no norte do Cáucaso. O canal do YouTube do líder da oposição russa, Aleksey Navalny, que está atualmente em uma prisão de segurança máxima após condenações por motivos políticos, acusou Margarita de mentir propositalmente  durante suas transmissões em Beslan a fim de atender às prioridades do Kremlin. Apesar de as autoridades russas saberem a verdade, Margarita não mencionou que os terroristas disseram que libertariam reféns se os soldados russos deixassem a Chechênia, e ela subestimou o número de reféns. O Kremlin posteriormente recompensou Margarita nomeando-a chefe do primeiro meio de comunicação em inglês da Rússia, a RT, financiado pelo Estado, (então chamado Russia Today), quando ela tinha apenas 25 anos.

Durante anos, Margarita expressou abertamente seu apoio à desinformação e à propaganda. Em uma entrevista de 2012  fazendo a cobertura do trabalho da RT durante a invasão da Geórgia pela Rússia em 2008, ela declarou: “O Ministério da Defesa estava em guerra com a Geórgia e travamos uma guerra de informação e com todo o mundo ocidental.” Em uma entrevista de 2013 , ela disse: “A arma da informação, obviamente, é usada em momentos críticos, e a guerra é sempre um momento crítico. E é guerra. É uma arma como qualquer outra.” Embora Margarita professe ser jornalista, ela apoiou descaradamente  a reversão da proibição de censura à mídia na Constituição russa, afirmando que “nenhum grande país pode existir sem controle sobre a informação”. Apesar de sua desaprovação aos chamados valores ocidentais, como o respeito à liberdade de opinião e liberdade de expressão , o slogan da RT é “questionar mais” e tenta se apresentar como uma voz dissidente.

Margarita cimentou seu papel como prolífica fornecedora de desinformação do Kremlin enquanto a Rússia invadia ainda mais a Ucrânia. Antes de fevereiro de 2022, como outros desinformadores do Kremlin , ela negou  que a Rússia adotaria uma ação militar contra a Ucrânia, alegando estar “absolutamente convencida de que a Rússia não iniciaria uma guerra com a Ucrânia, e isso não acontecerá de forma alguma”. Desde a invasão em grande escala da Rússia em 24 de fevereiro, Margarita aumentou sua linguagem belicosa, duas vezes indicando  que a Rússia poderia usar armas nucleares. Em junho de 2022, Margarita insinuou que o Kremlin desejava a insegurança alimentar global quando terminou uma reportagem com a frase: “Toda a nossa esperança está na fome.” Ela afirmou que um resultado positivo da fome global seria a suspensão das sanções globais à Rússia. O Kremlin continua a espalhar desinformação sobre insegurança alimentar, atribuindo isso às sanções impostas à Rússia pela guerra que trava contra a Ucrânia, embora as sanções dos EUA incluam exclusões relacionadas a transações agrícolas, médicas e outras humanitárias.

Desinformação do Kremlin — um caso de família

A desinformação e a propaganda de Putin é um negócio lucrativo, e não apenas para Margarita. Em 2020, Navalny e sua equipe publicaram uma investigação em duas partes  sobre os ganhos financeiros corruptos de Margarita e sua família. Uma das investigações se concentrou no marido de Margarita , Tigran Keosayan, que também está no ramo de desinformação e propaganda. Desde 2016, Keosayan apresenta um programa de TV de comédia política chamado “Serraria internacional com Tigran Keosayan” (em tradução livre), que é produzido no estilo de comédia política presente na televisão americana nos fins de noite. Em vez de zoar do governo, a comédia de Keosayan apoia Putin. De acordo com a investigação de Navalny, Margarita é diretora artística do programa de TV.

Keosayan usa recursos financiados pelo Estado  para filmar seu programa e o vende para uma emissora financiada pelo Estado a um preço inflacionado. O Gold Vision, estúdio de Keosayan, vende cada episódio de “Serraria Internacional” para a NTV, financiada pelo Estado, por 3,4 milhões de rublos. Com uma média de 35 episódios por ano, a NTV paga à Gold Vision quase 120 milhões de rublos (cerca de US$ 2 milhões)i. Além disso, a Serraria Internacional filma seus episódios nos estúdios da RT financiados pelo Kremlin, onde Margarita Simonyan é editora-chefe. Cerca de dez funcionários em tempo integral da RT trabalham na Serraria Internacional a cada semana. A maioria não recebe pagamento do estúdio Gold Vision por seu trabalho. De acordo com a investigação de 2020 de Navalny, além de usar fundos estatais para produzir o programa de televisão, Keosayan e Margarita obtêm lucros acima do valor de mercado com a publicidade da companhia aérea estatal Aeroflot. Margarita e Keosayan desenvolveram esses esquemas visando usar seu acesso a fundos federais a fim de obter lucro pessoal.

O Canadá , o Reino Unido  e a União Europeia  impuseram sanções a Margarita e Keosayan devido à disseminação de desinformação do Kremlin sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia. O Cazaquistão baniu Keosayan  do país devido às suas claras ameaças à soberania do Cazaquistão.

Ser porta-voz do Kremlin é bem remunerado

A investigação Navalny de 2020 expôs os outros fluxos de renda corrupta da família Simonyan-Keosayan. Um incidente específico  ilustrou a complexidade da rede de corrupção Simonyan-Keosayan:

Margarita e seu marido escreveram e dirigiram o filme de 2018 “Ponte da Crimeia”, que pretendia construir o orgulho nacional em uma ponte recém-construída que conecta a Rússia à Crimeia ocupada pela Rússia. O filme recebeu 100 milhões de rublos da organização estatal Fundação Cinema. O filme foi um negócio da família Simonyan-Keosayan com Keosayan dirigindo o filme e Margarita escrevendo o roteiro. Além disso, o irmão de Keosayan, as duas filhas, a ex-esposa, o sobrinho e a esposa do sobrinho ganharam quantias significativas de dinheiro por sua participação no filme. No total, a família Simonyan-Keosayan faturou 45 milhões de rublos com o filme, todos extraídos dos cofres do governo. Isso contrastava fortemente com o orçamento de todos os atores do filme, que era de apenas 10 milhões de rublos. Críticos de cinema e o público espectador criticaram negativamente  o filme e foi um fracasso de bilheteria.

Apesar das investigações de Navalny exporem a corrupção da família Simonyan-Keosayan, o governo russo ainda não processou o casal. Parece que, como Margarita dedicou sua vida a espalhar desinformação e propaganda a serviço do Kremlin, o Kremlin continuará a apoiá-la financeiramente.


O Centro de Engajamento Global publicou um relatório sobre a mídia financiada pelo Kremlin, que destaca os meios de comunicação com os quais Margarita está envolvida, como RT, Sputnik, Rossiya Segodnya e TV-Novosti. Isso pode ser encontrado aqui. O relatório também está disponível em árabe, chinês, francês, persa, português, russo, espanhol e urdu. 

U.S. Department of State

The Lessons of 1989: Freedom and Our Future